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26 agosto 2008

Às 2 da manhã, os meus pepinos transforma-se em dosiers e por qualquer razão isso hipnotiza toda a gente (leia-se: "eu")

...ou "séries há muitas".


Há muitos, muitos anos, a televisão dava o "Dear John", que chegava a casa de um dia de trabalho e encontrava apenas uma carta da suposta mulher que começava por "Dear John, When you read this letter I'll be long gone". E o John ia para um grupo de apoio a divorciados, vivia as desventuras dele e nós assistíamos, mais ou menos interessados.

Mais tarde vieram os primos. Um da cidade, outro de um sítio logo depois do "fim do mundo". E sempre que alguma coisa de boa acontecia tapávamos os olhos enquanto o inocente e norte-americano pacóvio celebrava com a famosa "dança da alegria". Estes eram os tempos simples.

Entretanto apareceu um carro que falava, saltava e andava em duas rodas. Ficção científica, sem dúvida, mas ainda assim, imaginável. Passados estes anos todos ainda não há carros bem assim, mas ninguém duvida que lá se chegará. Se hoje me dia há gente no Metro com uns auscultadores mínimos a falar para o outro lado do Mundo... carros que saltem hão-de estar a um salto...

Houve também um MacGyver, que construía bombas de pastilhas elásticas e asadeltas de sacos do lixo e canos velhos... Para quem nada percebe de química nem de física, aquilo parecia tudo bem real. Ou pelo menos, nada de sobre-humano. O homem tinha sorte. Sempre que precisava de cloreto de potássio*, fechavam-no na cozinha de um restaurante (sim, sim, cloreto de potássio é o única expressão de química que conheço...). E ele lá conseguia temperar a carne, mesmo a tempo de salvar o Mundo...

Desconfio, embora não tenha a certeza, que foi com o DragonBall que o mundo das séries televisivas não voltou a ser o mesmo. E cada vez mais estou a ficar velho para acompanhar o ritmo da imaginação estapafúrdia destes guionistas. Nem seis meses de "férias" lhes valeram.

Primeiro alguém resolveu que ir para a prisão salvar o irmão e tentar fugir com o mapa tatuado nas costas dava para fazer dúzias de episódios - quando o Sean Connery (78 Verões, não se esqueçam de lhe dar os Parabéns) escapou de Alcatraz em 136 minutos. E o que é que isto tem a ver com o DragonBall? Bem, quem viu aquelas cenas de porrada frenéticas e viciantes, em que um murro demorava entre quatro a seis dias a ser dado, sabe bem do que falo... Já vi fugas da prisão relatadas no telejornal em 20 segundos... Como é que esta gente consegue fazer render o peixe!? Ah, sim! Claro... e depois temos nova temporada, após a fuga... (já cá fora!, finalmente!...)

Mas há pior, claro. O auge era para mim a série sobre meia dúzia de tipos que caiem numa ilha. Porque normalmente é isso que acontece... Os aviões despenham-se do céu e há gente a cair ilesa. Numa ilha deserta. Que afinal não é deserta. E afinal, não foram só meia dúzia, deve ter sido aí metade do avião. E a ilha está cheia de gente. E de instalações militares, aborígenes e espirituais. E acontece tudo naquela ilha. Qualquer coisa entre "Triângulo das Bermudas" e "Ilha da Fantasia" (lembram-se desta, onde até havia um anão e tudo, mas onde, embora a fantasia reinasse no título, estava a anos-luz de "Lost"?...). Quem é que se lembra daquelas coisas?

E não pensem que me esqueço dos "Ficheiros Secretos". Aí pouco trabalho houve para a imaginação. Apenas uma colecta mais ou menos elaborada de mitos urbanos, histórias do papão e velhas lendas. Interessante, sem dúvida. Extra-terrestres (filmados desde que existe cinema), implantes debaixo da pele (não metem isso nos cães hoje em dia?) e abelhas assassinas (terão apanhada a gripe das aves?) têm a sua piada, trouxeram para o mainstream uma série de culto... mas são aprendizes perto das loucuras que hoje passam no móvel central da sala.

Reparem que isto não é uma crítica aos guionistas. Pelo contrário, cada vez mais me convenço que se eles quiserem prender-me em frente à televisão a ver alguém recitar poesia Haiku a partir de pepinos... conseguiam. Aliás, depois do que assiste hoje, já pouco deve faltar... Duas horas, completamente vidrado na história de um fulano que tem... uma chave. E seja qual for a porta onde ele a insira, vai parar a um quarto de um Motel. E a história é isto. Depois há detalhes, como a filha ter desaparecido nesse quarto e ele andar à procura dela. E o cientista da polícia, personagem cuja modelagem não existe (perfeita caricatura). O amigo muito mal representado... etc., etc.. Resultado: já meti o resto da série a gravar.



*Corrigenda: pensava, é claro, em cloreto de sódio, como bem apontou a Eva nos comentários...