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13 agosto 2010

Calcanhar-Ponta do pé

Entre o gostar simplesmente,
E o odiar visceralmente,
Medeia um hiato sem significado,
Se o metro estiver nivelado.

Mas dado o passo calcanhar-ponta do pé,
Existe toda a falésia do último voo,
Que atravessa o arco-íris dos sabores,
a que, insipidamente, chamámos emoções humanas.
Da paixão, à raiva, ao ódio, ao desprezo,
Até se estatelar na indiferença do tempo,
Atravessa-nos este momento de clarividência
Que o súbito e - sempre surpreendente - chão
Dá de brinde a uma queda.
É o pequeno instante da esperança,
o momento em que o pânico já combina festas.

O coração cruza todo aquele espaço vazio,
que se criou onde a superfície do desconhecido radicava.
Porque um desconhecido é possibilidade e no pior dos casos,
Uma esmola num chapéu onde se contam moedas negras;
Mas quem já se amou é um poço fundo,
onde a moeda nunca nos devolve o som da distância.

23 maio 2010

É lilás

É uma rocha à beira-mar,
é uma vila.
É um banco ladrilhado na pedra,
é um destino.
É uma mulher que chega e ri,
é uma fantasiosa ilusão.
É uma tarde de conversa,
é um número de telefone.
É uma paixão,
é hoje.
É sonhar de olhos abertos,
é o odor a sal e areia.
É o teu beijo, é sedução,
é partir só, no coração.

É uma onda que salta em espuma,
e me acorda,
te molha,
nos mistura.

É ali,
é agora,
é um dia.

É uma história que foi,
é o futuro.
É uma canção de embalar,
é a nossa foto.
É um primeiro encontro,
é o antes desse.
É um abraço de até amanhã,
é um até sempre.
É encontrar o filão da vida
é não ter onde o guardar.
É não ter nada de perfeito,
é ser apenas bom.
É saborear sem perceber,
é sentir.

É até que a morte nos encontre.
É o nosso amor.
É cor de cenoura.

11 abril 2010

Balada das gaivotas

Expectantes na praia do entardecer.
Ao alcance de ondas feiticeiras,
que explodem na indiferença,
face ao horizonte alaranjado, esperançado.

São admiradoras e a seu tempo personagens
daquela matiné de beleza apaixonante,
da grandiosidade do instante.

Os dias haverão sempre de se acabar em noites.
Porque elas estarão lá, magnificamente,
para se assegurar
disso.

17 março 2010

Tributo

Estas vis palavras não são senão sarcófago da minha alma;
Qual dama de ferro que me aprisioturtura o ser e o sentir.
Fútil este fundo branco na sua tentativa de reter quem sou.
O meu poema sangra dor e rejubila alegria. E este papel não é feliz.
Tristes de vós que ledes apenas o tributo.
O tributo ao poema.
Vivei o fervor da agonia e da magnificência,
Senti o nojo, senti a utopia.
Porque só sentido,
Só sendo,
Podereis escutar o poema
Que me rima o espírito.

29 dezembro 2009

Porque um poema também sofre

Quando no peito, uma dor amarga devagarinho,
Qual azia de corações vomitados… não fossem apenas um.
E desmente as rimas metrificadas com despeito.
Sem respeito; Sim… Sem respeito.
E quer gritar, mas as linhas nem tremem,
E quer fugir, mas as letras tão-só jazem.
Ao sentir nas narinas o apaziguador odor da cicuta,
Lança-se, desprende-se, deixa-se levar na torrente das palavras,
Rosto abaixo, pintalgado de sal sofrido e sulfuroso.
É nesses momentos,
em que o lábio treme e o olho brilha,
em que sentimos o que eu escrevi,
que o poema é nosso.
Porque partilhamos a sua dor.

14 outubro 2009

Uma manhã já antiga

Um destes dias,
Acordei numa manhã já antiga.
Anos atrás, tempos passado,
Um outro diferente do que sou,
Por muito menos vida sentida.

Nesse dia ainda não te conhecia.
Ainda não sabia o gosto
do teu sorriso tímido de catraia,
nem como fechas os olhos com lascívia
quando te beijo.
Ou o ritmo que aceleras no meu peito
quando me falas de ti,
quando me contas histórias de quem és.

Nesse dia, vi-te pela primeira vez.
E senti, sem ainda saber, o sangue a correr.
No ar um perfume que nem cheirei.
Na verdade, era o dia normal.
Era a semana repetida,
em tons de pastel,
a horas diferentes e no mesmo lugar.

Nesse dia, sorriste um sorriso de espontaneidade.
Quando as dores e as mágoas ainda não o haviam manchado,
Quando a felicidade ainda não o havia aprofundado.

Nesse dia, tudo foi natural e mal pensado.
Nesse dia em que eu, acordado,
Vivi o sonho encantado,
De te viver outra vez.

02 março 2009

Como dizer "já não te amo"

Foi naquela tarde, ao fim do dia
Sem distinta pompa, sem cortesia,
Que ao me rever te não descobri,
Vazio o espaço, em mim p’ra ti.
E logo absorto, descrente depois,
Que hesito, nego; desminto (ou minto)
E de coração em punho como os heróis
Juro-te o resgate do que já não sinto…
Como te perdeste em mim, minha deusa?
Como te dizer “já não te amo”?

Oh! Tanta canção, tanto poema,
Para um verbo e um pronome,
E esta chaga órfã, sem nome,
Que me persegue com dor extrema.
Treme-me o punho em sangue odiado
Que sobre ti pende e me trespassa
Este não sentir e sofrer culpado,
Traidor, desleal, vil e sem raça.
E é longo o padecer que não se explica.
Curta a frase, fria; quase científica.
“Já não te amo”.

01 fevereiro 2009

Leve, levezinho

Passo ante passo
Se faz o caminho.
Momento a momento,
Balançando o sossego,
Despindo o medo.
No meio da pista,
O segredo se conta,
Sussurrando aos gritos,
Partilhando o infinito.
Sou eu, sou eu.
Estou aqui, cheguei,
Anda ver, vamos dançar,
Vamos os dois festejar!
E a noite passa e não te largo,
É um sorriso irritante,
É o meu abraço.
Mais tarde amanhece,
O Sol aparece,
(estava tudo combinando).
Pomos os dois a mesa,
Lavamos a loiça.
(Quem sabe?
Talvez alguém trabalhe.)
E não há cupidos e setas,
Poemas nem borboletas.
Há eu e tu e tu comigo,
Há beijos, e este suave viver,
Todos os dias são nossos,
Somos os dois nós.
Viver e amar,
Amar e viver.
A alegria de perceber,
Que o Evereste foi bonito de subir,
Mas hoje é no sopé,
Que plantámos nossa casinha.
Aqui e ali.
Amar e ser feliz.

30 novembro 2008

Vibrar

O sangue a correr,
a vida a fluir.
Exortar a santidade do dia,
a divindade do sentir.
Exercer o ser,
existir por desejo.
Viver.

No pôr do sol,
na música que gela,
num olhar, no beijo.
No sexo.
Num carinho renovado,
no quadro da parede
numa vela, numa reza,
no riso desenfreado e sem sentido,
na avenida que passa,
na tela que fica.
No raio c'o parta.
(que seja!)

Mas exortar a vida
mas sentir o nirvana
mas galopar o momento
mas nunca morrer antes do dia.

31 outubro 2008

As mão assentes no teclado não tremem.
Os olhos assentes no écran não tremem.
As lágrimas assentes na negação não tremem.
Repito, tredito.
Repenso, trepenso.
Agora, já, o relógio, as horas, um post, uma letra, uma tecla.
O coração bate lentamente…
O coração bate lentamente…
Como se tivesse uma arma à cabeça.
E não há nada que se posso fazer,
Excepto sentir-me impotente.
Respirar.
Está tudo bem.