20 maio 2009

Ruas platónicas. À meia luz.
Com suas montras resplandecentes
encaixilhadas a negro glossé.
E este odor a éden que me seduz,
Da felicidade sonhada e desejada… não sentes?
A redenção final não se desenterrou da Sé...
E o tempo deixa de acontecer, é espectador
Enquanto me perco num puzzle de 5000 pensamentos
Sonhos, ilusões, planos, ideis, sugestões, histórias,
E é tudo verdade, sentido com o mesmo ardor
Desta mesa.
…
Mais tarde,
Ao sabor melancólico da realidade
Procuro, em agonia, o mapa desta louca cidade
Onde não me encontro.
Os passos são curtos, são moídos.
Às vezes, era preciso mais um toque de sorte.

28 abril 2009

Poesia de viagem

Há tardes assim.
Em que o caminho não se cruza com o destino,
E temos de encostar na berma da estrada,
E pedir guarida no motel da vida;
Receber um quarto com piolhos e baratas,
Mas não faz mal.
Porque é só por esta noite.

22 março 2009

Monstros e demónios,
De tamanho “L” e “XL”
Cores maléficas,
E mesmo maus,
Piores que as cobras,
(Se as cobras fossem más).
E estão aqui comigo
Fogem para acolá comigo
E passam a noite a meu lado,
Velando meus pesadelos.
São tenebrosos e companheiros
Viscerais e gigantes.
São tão meus como estes meus dedos.
E só me deixarão em paz
Quando eu finalmente
Os abraçar com quanta força tenho
E perceber afinal,
Que sou eu;
São tão grandes como eu,
Serão tão maus como eu.
E então,
Eu e meus medos
Seremos eu.

02 março 2009

Como dizer "já não te amo"

Foi naquela tarde, ao fim do dia
Sem distinta pompa, sem cortesia,
Que ao me rever te não descobri,
Vazio o espaço, em mim p’ra ti.
E logo absorto, descrente depois,
Que hesito, nego; desminto (ou minto)
E de coração em punho como os heróis
Juro-te o resgate do que já não sinto…
Como te perdeste em mim, minha deusa?
Como te dizer “já não te amo”?

Oh! Tanta canção, tanto poema,
Para um verbo e um pronome,
E esta chaga órfã, sem nome,
Que me persegue com dor extrema.
Treme-me o punho em sangue odiado
Que sobre ti pende e me trespassa
Este não sentir e sofrer culpado,
Traidor, desleal, vil e sem raça.
E é longo o padecer que não se explica.
Curta a frase, fria; quase científica.
“Já não te amo”.

07 fevereiro 2009

Nandiazar

A Ignorância Humana sempre foi um dos grandes argumentos do divino. Na idade média, o magnetismo; hoje em dia, curas milagrosas de doenças ex-fatais. A ciência vem, paulatina e lentamente, cerceando tais opções, embora as grandes questões continuem insondáveis - na verdade, mesmo muitas das pequenas...


De entre as questões que parecem permanecer imunes ao charme da compreensão humana, a das origens é das mais interessantes. A origem do Universo, a origem da Vida, a origem da Compreensão. A religião cristã encontra muitas vezes aí um reduto, face às derrotas que foi sofrendo, com o heliocentrismo, a teoria da evolução das espécies (em bom rigor, também ganhou argumentos, quando a mesma ciência prova que toda a vida terrestre é baseada em ADN, isto é, que dos sapos aos padres, temos todos a mesma base).


É até algo perturbador assumir a impossibilidade (actual?) de compreender certos fenómenos. Supostamente, no começo do Universo, não havia nada. E depois deu-se o Big Bang. Como conceber este nada? Esta anti-existência, situação abstracta e desconfortável? De onde veio e como? Reparem que, ao contrário de qualquer resposta, a dúvida é permanente - e permanece imperturbável, face a qualquer verdade ou mentira: somos resultado de uma experiência que correu mal num acelerador de partículas de uma outra civilização. E quem a criou? Qual a sua origem?... E se não ouve princípio? O Universo sempre existiu, não há momento inicial. Muito bem, se não teve um início, de onde veio, como apareceu?...

O nada é de facto perturbador para a mente. Conseguimos enquadrá-lo e dar-lhe um nome, mas concebê-lo? Imaginá-lo? Se o Universo é tudo o que existe, o que está por fora? Nada! E se alguém lá for, o que lhe acontece? Não pode lá ir! E o que se vê? Nada!... Será a compreensão humana capaz de absorver estes fenómenos tão incomparáveis à realidade que desde sempre a acompanhou? Será o nada o irónico limite do conhecimento humano?...

O início da vida é igualmente rebuscado, pois que o famoso caldo inicial continua esquivo das caçarolas de laboratórios espalhados por esse planeta fora. A centelha divina tem aqui espaço para crescer. A ciência talvez não.


Por muita ciência que exista hoje, ainda não conseguimos explicar ao coelho o que é o prado (ou sequer a caçarola). Embora muito de nós depositem uma fé inabalável em conceitos como "inteligência" e "lógica", a verdade é que temos uma grande falta de termos de comparação ("outras inteligências", "outras lógicas"). Como saber se, esta nossa inteligência é realmente boa? Como saber do que é capaz?... Não é inimaginável que, por muito sofisticado que seja o cérebro, sendo apenas o resultado do caos e da evolução (e não um objectivo divino), não tenha capacidade para entender tudo aquilo que gostaríamos. Não é inimaginável que, tal como o coelho não pode pensar, os humanos ainda que pensantes, não consigam realizar essa tarefa tão mais satisfatória e omnisciente que é nandiazar. 

02 fevereiro 2009

À terceira é de vez?...

Esta menina , é uma re-reincidente!!!!
:-)





Agradecimentos com muito atraso, como vai sendo praxe.
(E redistribuições, como sempre, encralacadas. Os meus prémitos estão ali diariamente alinhados do lado esquerdo :-) )

01 fevereiro 2009

Leve, levezinho

Passo ante passo
Se faz o caminho.
Momento a momento,
Balançando o sossego,
Despindo o medo.
No meio da pista,
O segredo se conta,
Sussurrando aos gritos,
Partilhando o infinito.
Sou eu, sou eu.
Estou aqui, cheguei,
Anda ver, vamos dançar,
Vamos os dois festejar!
E a noite passa e não te largo,
É um sorriso irritante,
É o meu abraço.
Mais tarde amanhece,
O Sol aparece,
(estava tudo combinando).
Pomos os dois a mesa,
Lavamos a loiça.
(Quem sabe?
Talvez alguém trabalhe.)
E não há cupidos e setas,
Poemas nem borboletas.
Há eu e tu e tu comigo,
Há beijos, e este suave viver,
Todos os dias são nossos,
Somos os dois nós.
Viver e amar,
Amar e viver.
A alegria de perceber,
Que o Evereste foi bonito de subir,
Mas hoje é no sopé,
Que plantámos nossa casinha.
Aqui e ali.
Amar e ser feliz.